#1 Kaidan- O Último Inverno


snowflakes

Konnichiwa Minna 

 

hoje trago um post meio grande… mas bem interessante, um kaidan que tal, para quem curthy histórias de terror hehe eu achei incrível contendo um começo sereno expressando seu ódio pelo inverno e continuando até chegar ao motivo deste ódio do qual é um motivo inimaginavel, quem diria deve ser o tal do maldito destino e pro fim um triste final mas uma história nova a se começar… créditos para Medob.

Kaidan – O Último Inverno

Antes de mais nada: o que é “kaidan”?
Kaidan (escreve-se “怪” [kai: estranho, misterioso, raro ou aparição fantasmagórica] e “談” [dan: conversa ou narrativa oral]) nada mais é que uma história e/ou lenda de horror/suspense. Existem as “Gakkou no kaidan” (Kaidan de escolas), “Fuyu no Kaidan” (Kaidan de inverno) e etc, etc…
O Último Inverno
Por que será que os vestibulares costumam ser realizados no inverno? Por que será que decepções amorosas combinam com o inverno? Por que o ar no inverno é tão frio a ponto de parecer que está cortando nossa pele? Por que o inverno é algo tão solitário?
Fico me perguntando: por que será que de todas as estações do ano, apenas o inverno tem essa imagem tão obscura? No inverno não há aquela sensação de frescor como na primavera, nem a animação do verão. Também não há o conforto que só o outono tem. Então, o que há no inverno? O que ele tem de especial que as outras estações não têm?
Até hoje, eu me faço essa pergunta que até uma criança de escolinha primária responderia, sem encontrar uma resposta. Se fosse antigamente, eu responderia tão facilmente, sem ter que pensar tanto… Desde quando isso se tornou tão complicado pra mim? Será que é uma espécie de incógnita que abrigo no meu peito?
Um frio que congela as pontas dos dedos. Pessoas que se encolhem de frio e escondem seus rostos em seus cachecóis, andando rápido. Todos se tornam tão apressados e egoístas. Uma estação que nem é tão bonita… No fundo, eu odeio o inverno. Não é algo que venha de hoje. Não sei responder exatamente quando começou essa antipatia, mas posso lhes contar o porquê de tudo.
É uma história de mais ou menos dez anos atrás. Logo, o fim de tudo chegará… 
Moro em uma vila pequena, com pouco mais de 1000 habitantes. Não há nada de especial ou único nessa vila, o que a torna um lugar bastante entediante para os mais novos.
Ano após ano, os jovens foram desaparecendo dela. Se fosse para levantar ao menos uma boa característica, eu poderia dizer que essa vila é muito pacífica e calma. Não posso dizer que gosto daqui, mas tampouco diria que a odeio. Mesmo assim, jamais pensei em morar num lugar tão deprimente pra sempre. Assim como os outros jovens, eu queria me formar, entrar numa faculdade em uma cidade grande e tirar o quanto antes a palavra “interior” do meu dicionário. Mas chega de falar como é a minha vila. Vamos ao motivo de tudo.
Isso foi lá pelos meus dez anos de idade. Bem na época em que uma onda furiosa deixou todos da minha vila apavorados. Eu jamais me esqueci… Foi sem dúvida alguma durante o inverno.
Um habitante daqui faleceu. Não que isso fosse raro de acontecer, já que a maioria das pessoas que moram aqui são idosas. Notícias de pessoas que morrem por aqui não faltam; em sua grande maioria as doenças e a velhice eram as responsáveis, por isso, nada realmente espantoso. Mas esta lembrança permanece em minha mente até hoje, mesmo que eu tente sobrepo-la com qualquer outra coisa. Por motivos mínimos, eu volto no tempo como num flashback e relembro tudo.
Foi no dia vinte e cinco de janeiro. Minhas férias divertidas de inverno estavam chegando ao fim, trazendo minha rotina entediante de volta. Acordar cedo foi difícil apenas nos primeiros dias, mas logo eu já havia me reacostumado. Era de tarde e o céu ainda estava bastante azul, mas a neve que caía de manhã já havia cessado. Enquanto eu me preparava para ir embora colocando meus livros de matemática e ciências em minha mochila vermelha, alguém tocou meu ombro.
– Ei, vamos brincar depois da escola? – era minha coleguinha de sala, com seus cabelos presos em duas maria chiquinhas. Engraçado que me lembro mais de seus cabelos do que de seu rosto ou tipo físico. É como se sua imagem aparecesse borrada em minha mente.
Olhei para a janela e analisei a neve: não parecia estar tão frio e eu nem tinha nada para fazer quando voltasse para casa, então pensei em aceitar.
– Atrás do templo, naquela floresta de sempre. Vamos? Chamei mais algumas pessoas. – olhei da janela para ela e respondi.
– Ok, vou sim. – me pergunto até hoje como teria sido se eu tivesse recusado esse convite, mas esse tipo de arrependimento não tem sentido, pois só nos torna mais amargurados, como se sobrecarregasse nosso peito com agonia. Essa sensação de “aperto no coração” é algo que me incomoda toda vez que me arrependo de algo.
Então, lá fui eu, minha coleguinha de classe e mais algumas crianças para a floresta atrás do templo, brincar de esconde-esconde. Talvez hoje pareça uma brincadeira boba para uma criança de dez anos, mas quanto mais tradicional, mais divertida essas brincadeiras são. A floresta era o lugar perfeito para brincarmos, embora nossos pais sempre nos mandasse ficar longe dali, ninguém levava isso à sério. Diferente da neve que se juntava na vila, a neve que caía entre as árvores daquela floresta era diferente, sem pegadas, como se as árvores estivessem atravessando um enorme tapete branco. Até essa época, eu ainda adorava o inverno.
Jogamos jankenpon e decidimos que quem iria nos procurar seria a minha coleguinha de maria-chiquinha. Deixamos nossas mochilas de qualquer jeito abaixo das árvores e esperamos ela encostar a testa no tronco da árvore e começar a contar até dez bem alto, para que todos pudéssemos ouvir. Tão logo ela fez isso e nos separamos, cada um para seu canto. Logo avistei uma rocha e hesitei, mas preferi procurar o lugar mais distante possível da garota para me esconder. Então, corri entre as árvores enquanto tinha tempo e me deitei de bruços num lugar com cerca de 20m de distância de onde ela estava. Prendi minha respiração e a observei. Ao meu lado havia a parede do templo, a qual fazia uma sombra perfeita para que eu me camuflasse. Ela olhou em volta e, após pensar para que lado ir, se afastou, sem nem mesmo olhar para o lado em que eu estava. Sorri e me ergui, me apoiando no tronco de uma árvore próxima. Sabia que dificilmente ela iria até ali para me procurar.
Foi nesse exato momento.
– Ahh! – ouvi um grito curto e um ruído que vinha direto do templo.
Numa floresta tão silenciosa, onde nem mesmo nós estávamos fazendo barulho para não sermos encontrados, aquilo soou bastante alto. Pior, era como se fosse para que apenas eu ouvisse, tamanha nitidez. Não era a voz de nenhum de nós; não era a voz de uma criança. Olhei em volta novamente, a respiração presa. Mal movi meu pescoço, limitando-me a olhar de um lado ao outro enquanto mexia somente os olhos. Não havia ninguém. Ninguém estava vindo. Foi como se até mesmo o vento tivesse parado de soprar. Meu coração parecia querer explodir dentro do meu peito.
– Ah…uh… – enquanto isso, eu continuava ouvindo aqueles gemidos. Meu corpo inteiro suava.
Decidi então me aproximar mais do templo, sem fazer nenhum barulho. A voz vinha do lado oposto do templo, um lugar bastante despercebido, onde até mesmo de tarde é quieto. Encostei meu corpo na parede e me inclinei de leve, apontando apenas o rosto para poder espiar. Esse foi o meu último erro. Perdi a chance de evitar ver algo que não teria volta, sem pensar. Quando percebi que não deveria ter visto aquilo, já era tarde demais. Foi como se meu corpo tivesse se petrificado.
– Ah..! – acabei deixando uma pequena exclamação escapar de minha boca.
Então… Os olhos daquela pessoa me fitaram. Ela ficou me olhando… E olhando… E olhando.
O frio era intenso, mas mesmo assim o vento que soprava me fez sentir dez vezes mais frio que o normal. Em contrapartida, eu suava incontrolavelmente, sentindo as gotas de suor escorrerem por minhas bochechas. A pessoa estava sentada de costas para mim sobre a neve, mas nossos olhares se cruzavam naquele momento. Apenas seu rosto estava virado, olhando por trás de suas costas. Seus olhos estavam brancos e leitosos como se alguém tivesse esquecido de desenhar seus detalhes, sua íris e seus contornos. Esses olhos fitavam apenas a mim. Eu não sabia mais distinguir se era um ser humano ou um monstro; apenas suas roupas e seus restos de cabelo denunciavam que por pouco aquilo ainda era humano. Aquilo vestia um sobretudo bege e balançava seus longos cabelos negros enquanto contorcia seus braços como duas serpentes. Vi os ossos de suas pernas transpassarem a pele, fazendo sangue ser jorrado por todos os lados. Mesmo não conseguindo manter-se em pé pelas inúmeras fraturas expostas, aquilo esticava seu braço direito, como se tentasse me alcançar.
Nessa hora, odiei pela primeira vez a brancura da neve, pois as gotas de sangue que caíam do corpo daquela criatura destacavam-se mais do que o normal. Me perguntei se aquilo realmente teria um coração que batia, ou se seria mesmo humano. Movia-se bem à minha frente, mas eu não conseguia sentir aquela energia “viva” que pessoas exalam.
– … – vi seus lábios se moverem num som mudo, mas tapei meus ouvidos na mesma hora, apavorada. Mas, aquilo também foi um erro.
Passados alguns instantes, aquilo conseguiu se levantar de forma desengonçada, vindo em minha direção.
 
“Preciso correr… Preciso correr…!”
Dentro de minha cabeça apenas isso ecoava, mas mesmo assim meu corpo se recusava a me obedecer. Era como se eu estivesse paralisada completamente, nem mesmo o ar eu conseguia sugar para dentro de meus pulmões. Só consegui manter meus olhos fixos naquilo…
– …é uma oferenda – sua voz deslizou por entre meus dedos e invadiu meus ouvidos com facilidade.
Me virei num impulso e vi uma moça jovem, parada bem próxima de mim. Ela sorria divertidamente, com uma expressão diabólica no rosto. Tinha cabelos bagunçados e longos, que caíam até a altura de seus seios e usava um kimono vermelho que lhe caía de forma estranha, talvez por ser magra demais. Assim como a outra criatura, eu não sentia que ela era viva… Parecia-se mais com uma estátua.
– A próxima é você. – afirmou ela, apontando para mim, sorrindo ainda mais.
Então, ela começou a caminhar em minha direção, fazendo meu coração pular dentro de meu peito, como se gritasse em pânico.
Aquilo foi a gota para mim. Desmaiei como se alguém tivesse me desligado da tomada, sentindo apenas a neve fria contra meu rosto ao desabar.
Quanto tempo terá se passado? Quando me dei conta estava em uma cama de hospital.
Segundo a menina que me encontrou, eu estava caída sobre a neve, agonizando baixinho, como se estivesse em um terrível pesadelo. Junto comigo, mais uma pessoa foi encontrada – uma moça de vinte anos de idade, também moradora do vilarejo… Mas ela já estava morta. Lembram-se da pessoa falecida que mencionei agora pouco? Pois era ela. Como de praxe, a polícia e os moradores da vila suspeitaram de assassinato, mas não haviam provas. E ainda por cima, mais ninguém viu a garota com o kimono vermelho além de mim. Todos diziam que não tinham idéia de quem pudesse ser, mas não poderia ser ninguém que não morasse nessa vila para estar num lugar escondido como aquele. Até mesmo a polícia rebatia minhas afirmações sobre a garota, dizendo que eu deveria ter visto coisas na hora do choque ou que foi só impressão. Mas, na verdade, não posso culpá-los por isso, já que naquele dia não haviam outras pegadas na neve além das minhas e as da garota morta. No final das contas, as pontas soltas foram sendo deixadas de lado, e a história acabou sendo esquecida por todos.
Mesmo assim, eu nunca consegui esquecer tão fácil como eles. Especialmente no inverno, tudo voltava à tona, fresco em minha mente. Se eu pelo menos pudesse me esquecer do inverno, talvez eu conseguisse fugir desse trauma, mas o ciclo de estações jamais permitia isso. Aquela cena grotesca, os olhos vazios que me fitavam com intensidade, a boca muda que tentava me dizer algo, e a garota vestida de vermelho… Tudo se tornava nítido de novo.
Por isso, aos poucos fui odiando cada vez mais o inverno. “Se eu pelo menos pudesse fazer o inverno desaparecer”, era o meu lamento constante, embora soubesse o quão ridículo e impossível era.
Bem, a história agora se passa no período em que completo treze anos de idade. Após aquele fatídico dia três anos se passaram, e eu descobri algo… Um segredo obscuro do vilarejo chamado “A Maldição da Oferenda”.
Acabei me esquecendo das horas enquanto brincava com uma amiga e quando dei por mim, já havia escurecido. Como eu sabia que precisaria chegar em casa o quanto antes, resolvi pegar um atalho e passar por dentro daquele templo, o qual eu não adentrava desde o dia em que desmaiei. Foi nesse momento. Ouvi o chefe do vilarejo e um dos moradores conversando, próximos à clareira das árvores. O morador, logo reconheci, era o pai da menina que havia me convidado para brincar de esconde-esconde naquele dia. Vendo a expressão séria dos dois, não resisti e me escondi atrás de uma árvore, tentando ouvir a conversa (algo que não foi tão difícil, visto que ali era uma região extremamente silenciosa).
– Minha filha ficará bem, não é? Ela não pode ter sido escolhida como oferenda… Certo? Não consigo parar de pensar nisso… – indagou o pai da minha colega de classe, com uma expressão sofrida no rosto. Ele estava todo sujo de terra, então deduzi que fosse agricultor ou algo do tipo. O chefe do vilarejo era um senhor bastante idoso, com as costas muito curvadas. Ele mal alcançava a bengala que usava, mas naquele momento, por mais estranho que fosse, ele me pareceu alto.
– Quantas vezes tenho que lhe dizer? Está tudo bem, a oferenda será a outra garota, com certeza.
– É… É, não é? Minha filha não morreria por ser escolhida… Não é mesmo? Naquele dia, três anos atrás, ela nem mesmo viu os olhos da oferenda. Ela só viu o lugar onde a oferenda foi sacrificada, mas nada além disso… – disse o pai, como se quisesse afirmar aquilo para si mesmo.
Três anos… Atrás? Sacrificada? Escondida atrás daquela árvore, lutei contra meus batimentos cardíacos que pareciam acelerar mais do que eu suportaria. Eu sabia do que eles estavam falando, mais do que gostaria de saber. Não precisei de muito tempo para vislumbrar toda aquela cena novamente.
– A oferenda será aquela garotinha que encontramos desmaiada. Sem dúvidas ela deve ter visto os olhos da oferenda anterior no momento de seu sacrifício. E além de tudo, ela tinha dez anos na época.
Os olhos da oferenda anterior? Estaria ele falando dos olhos da outra moça, que fora encontrada, já falecida?
Lembrei-me então dos olhos e da boca da criatura que vi naquela tarde. O que será que ela estava tentando me dizer? Eu não pude ouvi-la pois havia tampado meus ouvidos…
– Ah, que bom… Me sinto mais tranquilo agora. Ainda bem que a vila ficará em paz durante mais dez anos. – era como se um fardo fosse tirado das costas daquele homem, agora visivelmente mais calmo.
– No dia vinte e cinco de janeiro o ritual da oferenda será realizado de qualquer maneira. Dez anos após aquele dia, a pobre garota que encarou a oferenda anterior irá morrer. – concluiu o chefe da vila.
Pobre garota… Quer dizer…
Meu pesadelo havia se tornado realidade, e numa fração de segundos eu sabia o que o destino havia reservado pra mim. Quando todos os pontos se ligaram e eu finalmente entendi o que se passaria, saí correndo da floresta, sem me importar se me veriam ou não. Ao perceber que estavam sendo espionados, gritaram “Quem está aí?!” à direção em que eu havia me escondido, mas não parei de correr um só segundo. Tropecei várias vezes em amontoados de neve e quase caí, mas eu não queria parar de correr. Serei morta… Pelo meu vilarejo, ou melhor, pela tradição de meu vilarejo! Só então eu consegui entender o que aquela criatura… A garota… Tentava me dizer, em seus últimos momentos: “Não olhe”. O movimento que seus lábios faziam… Era claro.
“Não olhe… Não olhe… Não olhe…”
Provavelmente, ela estava tentando evitar que eu me tornasse a próxima oferenda, e por isso, para não perturbar ou criar problemas com ninguém, refugiou-se em um lugar onde não iriam encontrá-la facilmente… Embora eu a tivesse visto. Mesmo que ela tivesse avisado tantas e tantas vezes para que eu não a olhasse, já era tarde.
Segundo a tradição, aquele que olhar nos olhos da oferenda enquanto a mesma é sacrificada é escolhido como a próxima oferenda, tornando-se amaldiçoado. E não basta apenas isso. A maldição não se concretiza se a pessoa não tiver exatos dez anos de idade. E eu tinha exatamente isso. Dez anos depois, a oferenda escolhida será sacrificada na idade adulta, ou seja, aos vinte (n/t: no Japão a maioridade é tida após os vinte anos de idade), para que a paz no vilarejo possa ser mantida.
Graças a essa tradição, de fato, nosso vilarejo era assustadoramente pacífico.
Então, provavelmente, a garota que eu vi vestida de vermelho era a oferenda anterior àquela que eu vi agonizando. Era ela que estava matando a garota que fora encontrada comigo, três anos atrás.
“A próxima é você”.
Foi isso que ela disse. Você, ou seja, eu. Serei a próxima oferenda. Pois vi os olhos amaldiçoados…
Sete anos depois, quando dei por mim, já havia completado vinte anos. Após ter descoberto a Maldição da Oferenda, tentei sair do vilarejo a qualquer custo, a fim de salvar a minha vida. Mas, curiosamente, quanto mais eu tentava, menos sorte tinha. Graças a sequência de fracassos que obtive, aos poucos minha vontade de sobreviver se extinguiu, e eu percebi então que seria impossível escapar dali, na altura de meus dezoito anos. Então, mais dois odiados invernos depois, recebi meu vigésimo vinte e cinco de janeiro. Eu vou morrer. Por esse vilarejo ou sua porcaria de paz, eu vou morrer… Não, eu serei morta.
A paisagem da vila estava odiosamente bela nesse dia. A neve que caía silenciosa do céu se espalhava num chão imaculadamente branco, formando uma paisagem linda e também horrenda. Um boneco de neve que não se sabe quem montou estava parado num canto da rua, enquanto as crianças brincavam de guerrinha de neve, me fazendo perguntar no íntimo como era possível não enjoarem disso nunca. Estava muito frio, como se meu corpo estivesse sendo cortado pelo vento gelado, e era como se eu gostasse dessa sensação, num misto de desconforto. Eu odeio o frio. Do fundo do meu coração, eu odeio o frio.
Vinte e cinco de janeiro. Para que ninguém pudesse me ver, resolvi morrer dentro de minha casa. Meus pais morreram quando tentei sair do vilarejo. Foi como se este lugar os tivesse matado. Empurrei as cortinas do quarto e abri a janela. Queria pelo menos morrer olhando para esse maldito inverno, já que eu morava numa rua bastante deserta, onde quase ninguém passava.
Flocos de neve adentraram meu quarto e desapareceram em meu tapete, derretendo. A garota que eu vi dez anos atrás apareceu logo à minha frente, como se tivesse vindo do nada. Ela não parecia o monstro daquele dia; usava um sobretudo bege como naquele dia, mas apenas me olhava, fixamente, inexpressiva e calada. Logo após isso, senti uma dor lancinante que parecia moer meu corpo inteiro por dentro. Olhei para o espelho que havia pendurado no quarto e vi cada parte de meu corpo se contorcer em ângulos inimagináveis, enquanto o som de ossos que iam se partindo invadia meus ouvidos. E não foi uma ou duas vezes. Aquilo foi se repetindo de novo, e de novo, fazendo meu corpo estalar inteiro, enquanto eu gemia debilmente. Meus olhos estavam perdendo o foco, e o pouco que eu enxergava no espelho era um monstro de olhos brancos, leitosos… Eu já não era mais humana.
Sem pensar duas vezes, desviei o olhar do espelho. Não conseguia mais encarar o que eu estava me tornando. Enquanto isso, a garota de sobretudo apenas me observava sem dizer nada, com um olhar triste. Arrependimentos sem propósitos e mágoas do inverno se acumulavam em meu peito, dominando-o. No fundo, eu não queria morrer, mas curiosamente, não derrubei uma só lágrima por iso. A última coisa que vi nos últimos momentos de lucidez foi os olhos de alguém, que me observava da janela. A mochila vermelha se destacava, fazendo minha própria imagem surgir em minha mente.
Não… Não olhe… Não olhe para os meus olhos, você não deve olhá-los!
– Não olhe… Não…olh.. Não… – tentei alertá-la, desesperada, mas não conseguia tirar os olhos daquela garotinha de mochila.
– A próxima… – disse a garota de sobretudo bege, apontando para a garotinha, que tremia da cabeça aos pés, assustada, sem conseguir sequer se pronunciar.
Provavelmente, sem saber o que pronunciar. – …é você.
Então, finalmente minha consciênia se foi. Este foi o meu último inverno. Daqui dez anos, também no inverno, eu voltarei pela última vez.
O vilarejo, o ódio pelo inverno, as mágoas, todos esses sentimentos foram esquecidos… Até mesmo eu me esqueci, deixando de ser quem era. Sem dúvidas, eu irei aparecer na frente daquela garotinha e matá-la, independente se esse for o meu desejo ou não.
Não há mais nada que possa salvar o monstro que eu me tornei…
Fim.
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